quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

[sem título]


" A imagem não é o espelho, nem o espelho é a imagem, mas é no espelho que está a imagem”.

Leva-me contigo. Leva-me para onde não mais tenha de voltar. Leva-me de volta para o lugar de onde nunca vim. Leva-me. Morto ou vivo ou moribundo ou então nada disso, mas leva-me. Leva-me para que nunca mais volte e não tenha de ouvir os pássaros que voam, as galinhas que cantam as madrugadas cansadas. Os esgares nocturnos do vómito. Leva-me para aquele sempre de que nunca ousaremos falar. Para o sem fim de nada. Ou de tudo. Ou de nada, nada de novo e de novo tudo.
Leva-me contigo para onde o desespero amanhece com dores de cabeça aguardando ansioso pela noite, para voltar acordar de novo. Novo. Leva-me e não me deixes comigo, que sou incerto. Que sou o que não desperta. Que não sou nada e esse nada desespera por mais. Nada.
Leva-me para sempre. Que seja essa a viagem que não regressa. O mito do não retorno. O fim. O princípio do que acaba. O resto.

Leva-me de uma vez. Para nunca mais.


LAM


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

As palavras que se recolhem



São as tuas palavras que se recolhem
no mais íntimo do meu pensar.
Foram escolhidas
para ter um lugar cativo.
São elas que guiam os meus dedos
por este labirinto de letras.
Posso tudo escrever mas são
o que disseste, o padrão
da multiplicidade de sentidos.
Posso escrever azul, porque o sinto
sempre azul, mas tu o disseste roxo.
Roxo será. Possa eu dizer cimo ou cume,
tu dirás encosta e eu não vou mais alto.
Porque o disseste. Isso tem um valor profundo.
Aquele valor que nos guia, cegos,
pelos caminhos da tua certeza.

Só, sou contigo. Um par de dois
em que um é também o outro.
Um par singelo. Um,
parto com dor.
Pudesse eu julgar-me
nos intervalos. Soubesse eu como se faz
o firmamento,
podia mostrar-te as cores
do fim do dia, onde só vês noite.
Não vês o antes.
Só o depois.

Tu aqui.
E eu também.
O dia teve um começo,
onde deste o primeiro passo,
para fora, de mim.
Palavra a palavra foste
erigindo o círculo onde te condenas.
Plantas cada sílaba,
nos cantos desse círculo
onde aparecem letras
desencontradas que vais deixando cair
uma a uma,
no teu percurso de gatas,
à procura?

Como fui eu ficar de fora?
O que fizeste afinal?
Sem mim não falas,
nada dizes,
apenas semeias vocábulos
sem fundamento.
Ficam soltos no ar.
De fora vejo-te no jogo
de apanhar letras e formar
termos compostos e disformes.
Estás a escolher de novo
as palavras para mas dizer
e eu guardar
noutro cantinho do meu ser.
Estou cheio de gavetas tuas,
onde guardo os teus sinais diários
de cada noite vencida.

Por estares, só me queres igual.
Por seres só, o que és,
me pensas aos poucos,
no parecer das sombras
nocturnas
de onde saem todos
os pesadelos.
Ofereces-mos.
Sou o guardador da tua intimidade.
Deste-te inteira ao meu regaço,
porque não dúvidas
nem da minha existência,
nem do meu tormento.

Um dia, se mo deixares,
plantarei uma rosa no teu peito,
para que vejas crescer,
pétala a pétala
um ser diferente
e assim
aprenderes a amar.


LAM


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

a um pensamento de ti

Nada do que faço é meu,
nem nada do que penso, me pertence.
Nada possuo, tal como nada quero.
Quanto menos tenho, mais enriqueço, até que o vazio total me preencha.
Então, poderão dizer:
- “Quão pleno ele se tornou!”


LAM, Sempre! Jan 2016







segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Siar



Os anjos não tem sexo
Preferem ver os outros
Os anjos tem asas
Mas são os corvos que voam
Os anjos são servos
Mas deus não precisa deles
Os anjos são brincalhões
Mas as suas brincadeiras não tem piada
A não ser para os anjos
Os anjos são bem comportados
Os outros não tem educação
Os anjos dormem a horas certas
E não precisam de despertador
Os anjos são brancos.
Porquê?
Os anjos são velozes e vêm longe.
Os homens são parvos e precisam de óculos
Os anjos são diabos ao contrário
As crianças são homens pequenos, mas não precisam de óculos
Para ver os anjos.
E não são parvos.
Os anjos gostam de comboios
As crianças brincam com comboios
Os anjos são crianças
As crianças são anjos adultos
Eu sou uma criança
Já me nasceram as asas.

Ensinas-me a voar?

LAM

quarta-feira, 15 de julho de 2015


(criança com balão by Bansky)

Não só o silêncio não julga, como também perdoa.

(autor conhecido)


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Soneto XX


[ foto do autor ]

Sinto de ti a distância dos astros
A mesma que nos afasta do vento
Sinto em ti a ausência do tempo
O mesmo que passa nos claustros

Onde o tempo não tem razão
Tão sem tempo para pousar
Tudo o que diz é um só falar
Palavras que caem, no chão

Sei em ti o esquecimento
Esse a que me votei
Sem pertença a nenhum momento

Sem que me reveja no horizonte
Nesse distante que é só teu
Permaneço de pé, errante,

(neste caminho, que é só meu!)


LAM; Sonetos, Julho 2014

terça-feira, 23 de junho de 2015

Porque a memória é um beco com saída




walking alone by karyokinez at Deviantart

Caminhava sobre os pés macios e o chão viajava ao sabor do seu destino. Sem pressa. Na cabeça, ou mais dentro de si ainda, a melodia ornamenta-se em volutas. Diáfanas, como são as nuvens de uma manhã de primavera. Seguia apenas o pensamento. Nada o detinha, nem se detinha. Em nada. Cada palavra que lhe nascia nas entranhas tinha um signo preciso. E mágico. E precioso. Seria assim desde sempre, e também para todo o sempre. Não se reconhecia gente e, se falava, era para que as sombras de outros se desviassem do seu percurso, para que não as magoasse, nem se ferisse num embate etéreo e fugaz, tanto mais rápido quanto o ponteiro dos dias. Assim chamava ao seu tempo, nessa muito sua voz, só. Enigmática e hermética. Selada. Nada seria suposto saber-se para além do que testemunhava e, mesmo quando dois pensamentos se teriam de cruzar, um esperava que o outro se fosse, arrumado, até que de novo fosse necessária a sua evocação. Só apareceria assim. Esperando que lhe fosse dada a vez para se dar a conhecer, porque sendo, ou tendo sido um, já não seria mais o mesmo. Tinha disso a plena consciência. Cada coisa valeria só por si e apenas uma vez. De cada vez.
Num intervalo entre os dias, sentou-se numa pedra. Antes ainda, olhou em redor e viu que o sol se aconchegava ao seu lado direito. Movia-se, como só o sol sabe mover-se, silencioso e altivo, para as suas costas. Sentou-se então para que ficassem de frente, ele, o sol e toda a distância que ainda os separa, pedindo licença ao rochedo anónimo que o acolheu com agrado. Permitiu-se sorrir ao afagá-lo, sentindo-o cálido para a hora. Com a temperatura exacta que lhe aliviaria as pernas já um tanto fatigados do seu fado. Não tendo parado sequer quando teve sede e passou a vau um regato manso já não ali perto. Saciou-se ao tocar com todo o cuidado o musgo da pedra que ficava no lado da sombra. Essa frescura preenche-o e foi bom.
Libertou-se de tudo quanto trazia e assim, despido de certezas, banhou-se na dúvida, mergulhando na sua profundeza, até ao limite onde os peixes e todos os outros animais aí já não precisam dos olhos, contemplando cada coisa, pelo que era cada coisa e examinando também todas as outras coisas, que eram tão só, todas as outras coisas, permitiu-se notar o que cada coisa tinha para lhe dizer e o que cada coisa tinha a dizer a todas as outras coisas e a ouvir de cada coisa o que essa coisa não dizia, pois era esse o momento em que mais diziam. Confessando-se no seu silêncio. Na ausência. Nesse ponto, que não era o centro, nem a periferia, nem o que fica entre o centro e a periferia e também o que fica para além do centro e da periferia, nesse todo, confundia-se, camuflava-se desse todo, de tal forma, que um observador ocasional, apenas veria uma pedra, com musgo, ligeiramente húmido no lado oposto ao do que o sol alumiava e se fosse mais atento, teria notado que a pedra se dividia em duas partes, nada iguais, e com temperaturas e tonalidades também diferentes e que, se se observasse com mais atenção ainda o chão à sua volta, veria uma sombra imperceptívelmente maior do que a sombra que o sol provocava da pedra, só. Desse modo, o não visto, o que não se deixava ver, nem observar, nada vendo nem olhando, era o todo que o observador via.
Quando, no ombro naquele que se não vislumbrava, um grande pássaro pousar, que para uns será uma enorme águia-real, para outros, um mocho diurno, porque os há, diurnos, e se por acaso, o sol já tivesse desenhado uma sombra mais comprida no chão a partir da pedra, essa ave poderia ser um morcego, que levantará o seu voou logo de seguida, no caminho da noite. O que não se vislumbra veria uma Fénix e esta seria a sua irmã, que de morta nas cinzas se reconstruía na união dessa matéria inerte e liberta, já fria, renascendo, tornando-se a fénix e ele um só, por todo o tempo que durasse esse dia, que só a noite poderia extinguir.

Vogava. Despido, ainda conserva numa mão o passado e na outra, o futuro. Quando achar oportuno, unirá as duas e terá o presente nas suas mãos. Unidas. Os dedos e a carne. E o tempo.

LAM; Contos in Findos, Junho 2015, Edições Afa-Zer



quinta-feira, 18 de junho de 2015

II



No caminho está só
Aquilo que é
A sombra do que não é


LAM, Haiku, Junho de 2015


domingo, 14 de junho de 2015

As a Silent Bruit

Enjoy!

As a Silent Bruit – Tracklist

  1. Jungle Talk - Jungle Birdsong – Echoes of Nature: The Natural Sounds of the Wilderness - Delta Distribution; 1993
  2. A Produce – An Indian Surface - Trance Port: Trance Port Special Editions ‎– tpse-cd-111; 2005
  3. Cello + Laptop ‎– La Souriante Madame Beudet - Parallel Paths: Envelope Collective ‎– ENVCD03; 2012
  4. Arno Peeters – Aud Entity (Extended Version) – Aeroson: Mille Plateaux ‎– mp38; 1996
  5. Hilary Hahn & Hauschka – Stillness – Silfra: Deutsche Grammophon ‎– 00289 479 0303, 2012
  6. Turkey Talk - Jungle Talk: Echoes of Nature: The Natural Sounds of the Wilderness – Delta Distribuition, 1993
  7. Max Richter – Blue Notebooks - The Blue Notebooks: 130701 ‎– CD13-04, 2004
  8. Stephan Mathieu ‎– Akira Rabelais […] Edit - Full Swing Edits: Orthlorng Musork ‎– ORTH 05, 2001
  9. Echoes of Nature – Low Tide – Disc 2 - Echoes of Nature: The Natural Sounds of the Wilderness Delta Distribuition, 1993
  10. Arovane – Nostalghia I – Eleeve - Not On Label (Arovane Self-Released) ‎– none, 2015
  11. John Cage – In a Landscape by Alexei Lubimov ‎– Der Bote; ECM New Series ‎– 461 812-2, 2002
  12. Pink Floyd – Is There Anybody Out There? – The Wall (luMar edit); PC2 36183, 36183 US, 1979




quinta-feira, 11 de junho de 2015

A re-banho


wolf/lamb by swantelope at deviantart

Tu,
Que carneiro te pensas
E como carneiro te ages,
Segues
O carreiro que todos
Os carneiros
Seguem
Confiando que é
De carneiro
o carreiro
que seguem
Que tanto
se abstraem do bafo do
Lobo
E no lodo caem,
Na boca
Do lobo.



LAM; o Paradigma do Pombo Molhado; Edições Afa-Zer, 2015