Os anjos não tem sexo
Preferem ver os outros
Os anjos tem asas
Mas são os corvos que voam
Os anjos são servos
Mas deus não precisa deles
Os anjos são brincalhões
Mas as suas brincadeiras não tem piada
A não ser para os anjos
Os anjos são bem comportados
Os outros não tem educação
Os anjos dormem a horas certas
E não precisam de despertador
Os anjos são brancos.
Porquê?
Os anjos são velozes e vêm longe.
Os homens são parvos e precisam de óculos
Os anjos são diabos ao contrário
As crianças são homens pequenos, mas não precisam de óculos
Para ver os anjos.
E não são parvos.
Os anjos gostam de comboios
As crianças brincam com comboios
Os anjos são crianças
As crianças são anjos adultos
Eu sou uma criança
Já me nasceram as asas.
“Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”
…
“Não sei se ainda estás em Caracas, já de regresso a
Barcelona ou talvez em algum ponto aéreo entre as duas, escrevi hoje a
Villa-Matas. Por cá, já todos lemos a notícia de Rómulo Gallegos, a qual
incluía, por alguma razão, apenas comentários teus. O mais interessante: quatro
a um não é a mesma coisa que três a dois. Enfim, imagino que já andarás mais
calmo sem a carga desse concurso.
Estive a ler Bartleby e
Companhia, escrevi-lhe, fazendo referência à sua obra que fala da pulsão negativa
dos escritores, da sua atracção pelo nada: escritores que deixaram de escrever.
Se Bartleby é a personagem literária que representa o escritor do Não, aquele
que preferia não fazê-lo (ou já não o fazer), quem representa então o escritor
do Sim? Que personagem literária poderia exemplificar os escritores que sim,
preferiam fazê-lo? Passa-me pela cabeça que é nessa batalha que me encontro
actualmente. À procura de origens literárias, estou, na realidade, à procura de
momentos do Sim, dirijo-me com cautela para o extremo oposto de todos os
Bartlebys. Espero não te maçar demasiado com estas insignificâncias.”
…
“Já sem qualquer brisa, Vladimir viu apenas o peso de uma
gota de chuva, brilhando luxuosamente, resplandecendo como um metal liquido,
arqueava a ponta de uma pequena folha verde. Silêncio. Viu como este glóbulo prateado
deslizava lentamente através da veia central da folha. Quietude. E depois, no
mesmo segundo que mais pareceu uma fenda no tempo, viu como a majestosa gota caiu,
aliviando a folha daquele tremendo peso e fazendo-a regressar, em rítmicas oscilações,
à sua posição original.”
…
“De nada, Eduardo. Faça-me só um favor, sim? Deixe-se de
parvoíces, não faça esse tipo de perguntas estéreis. Não há respostas válidas
para a pergunta sobre a razão pela qual alguém se torna escritor e, ainda que
as houvesse, seria a mesma coisa, não interessam a ninguém.”
…
“”Escrever para que me leiam, creio recordar que disse, em
algum momento, Oscar Wilde, embora talvez tenha sido André Gide – tendo a
confundi-los e para os meus fins pouco importa. Mas monsieur Wilde, objectar-lhe-ia se eu pudesse, porque quer você que
o leiam? E o senhor Wilde, audaz, monumental, com o seu génio irónico sempre
afinado, talvez me respondesse que quer que o leiam para, assim, poder continuar
a escrever.”
Eduardo Halfon: “O Anjo Literário”, Cavalo de Ferro