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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

a um pensamento de ti

Nada do que faço é meu,
nem nada do que penso, me pertence.
Nada possuo, tal como nada quero.
Quanto menos tenho, mais enriqueço, até que o vazio total me preencha.
Então, poderão dizer:
- “Quão pleno ele se tornou!”


LAM, Sempre! Jan 2016







segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Siar



Os anjos não tem sexo
Preferem ver os outros
Os anjos tem asas
Mas são os corvos que voam
Os anjos são servos
Mas deus não precisa deles
Os anjos são brincalhões
Mas as suas brincadeiras não tem piada
A não ser para os anjos
Os anjos são bem comportados
Os outros não tem educação
Os anjos dormem a horas certas
E não precisam de despertador
Os anjos são brancos.
Porquê?
Os anjos são velozes e vêm longe.
Os homens são parvos e precisam de óculos
Os anjos são diabos ao contrário
As crianças são homens pequenos, mas não precisam de óculos
Para ver os anjos.
E não são parvos.
Os anjos gostam de comboios
As crianças brincam com comboios
Os anjos são crianças
As crianças são anjos adultos
Eu sou uma criança
Já me nasceram as asas.

Ensinas-me a voar?

LAM

terça-feira, 23 de junho de 2015

Porque a memória é um beco com saída




walking alone by karyokinez at Deviantart

Caminhava sobre os pés macios e o chão viajava ao sabor do seu destino. Sem pressa. Na cabeça, ou mais dentro de si ainda, a melodia ornamenta-se em volutas. Diáfanas, como são as nuvens de uma manhã de primavera. Seguia apenas o pensamento. Nada o detinha, nem se detinha. Em nada. Cada palavra que lhe nascia nas entranhas tinha um signo preciso. E mágico. E precioso. Seria assim desde sempre, e também para todo o sempre. Não se reconhecia gente e, se falava, era para que as sombras de outros se desviassem do seu percurso, para que não as magoasse, nem se ferisse num embate etéreo e fugaz, tanto mais rápido quanto o ponteiro dos dias. Assim chamava ao seu tempo, nessa muito sua voz, só. Enigmática e hermética. Selada. Nada seria suposto saber-se para além do que testemunhava e, mesmo quando dois pensamentos se teriam de cruzar, um esperava que o outro se fosse, arrumado, até que de novo fosse necessária a sua evocação. Só apareceria assim. Esperando que lhe fosse dada a vez para se dar a conhecer, porque sendo, ou tendo sido um, já não seria mais o mesmo. Tinha disso a plena consciência. Cada coisa valeria só por si e apenas uma vez. De cada vez.
Num intervalo entre os dias, sentou-se numa pedra. Antes ainda, olhou em redor e viu que o sol se aconchegava ao seu lado direito. Movia-se, como só o sol sabe mover-se, silencioso e altivo, para as suas costas. Sentou-se então para que ficassem de frente, ele, o sol e toda a distância que ainda os separa, pedindo licença ao rochedo anónimo que o acolheu com agrado. Permitiu-se sorrir ao afagá-lo, sentindo-o cálido para a hora. Com a temperatura exacta que lhe aliviaria as pernas já um tanto fatigados do seu fado. Não tendo parado sequer quando teve sede e passou a vau um regato manso já não ali perto. Saciou-se ao tocar com todo o cuidado o musgo da pedra que ficava no lado da sombra. Essa frescura preenche-o e foi bom.
Libertou-se de tudo quanto trazia e assim, despido de certezas, banhou-se na dúvida, mergulhando na sua profundeza, até ao limite onde os peixes e todos os outros animais aí já não precisam dos olhos, contemplando cada coisa, pelo que era cada coisa e examinando também todas as outras coisas, que eram tão só, todas as outras coisas, permitiu-se notar o que cada coisa tinha para lhe dizer e o que cada coisa tinha a dizer a todas as outras coisas e a ouvir de cada coisa o que essa coisa não dizia, pois era esse o momento em que mais diziam. Confessando-se no seu silêncio. Na ausência. Nesse ponto, que não era o centro, nem a periferia, nem o que fica entre o centro e a periferia e também o que fica para além do centro e da periferia, nesse todo, confundia-se, camuflava-se desse todo, de tal forma, que um observador ocasional, apenas veria uma pedra, com musgo, ligeiramente húmido no lado oposto ao do que o sol alumiava e se fosse mais atento, teria notado que a pedra se dividia em duas partes, nada iguais, e com temperaturas e tonalidades também diferentes e que, se se observasse com mais atenção ainda o chão à sua volta, veria uma sombra imperceptívelmente maior do que a sombra que o sol provocava da pedra, só. Desse modo, o não visto, o que não se deixava ver, nem observar, nada vendo nem olhando, era o todo que o observador via.
Quando, no ombro naquele que se não vislumbrava, um grande pássaro pousar, que para uns será uma enorme águia-real, para outros, um mocho diurno, porque os há, diurnos, e se por acaso, o sol já tivesse desenhado uma sombra mais comprida no chão a partir da pedra, essa ave poderia ser um morcego, que levantará o seu voou logo de seguida, no caminho da noite. O que não se vislumbra veria uma Fénix e esta seria a sua irmã, que de morta nas cinzas se reconstruía na união dessa matéria inerte e liberta, já fria, renascendo, tornando-se a fénix e ele um só, por todo o tempo que durasse esse dia, que só a noite poderia extinguir.

Vogava. Despido, ainda conserva numa mão o passado e na outra, o futuro. Quando achar oportuno, unirá as duas e terá o presente nas suas mãos. Unidas. Os dedos e a carne. E o tempo.

LAM; Contos in Findos, Junho 2015, Edições Afa-Zer



quinta-feira, 18 de junho de 2015

II



No caminho está só
Aquilo que é
A sombra do que não é


LAM, Haiku, Junho de 2015


domingo, 17 de maio de 2015

Quem; Como; Porquê; ...


a man with wilted flowers by Bansky

Capitulo primeiro
O acordar é um exercício demorado que requer uma atenção focada. Objectiva. Nele, é uma coisa que acontece em sobressaltos. Como subir uma escada, onde não se sabe onde se começa nem onde se vai parar. Apenas se tem a consciência de que se sobe. Que se tem de subir, a maioria das vezes contrariando esse impulso natural, fechando os olhos e obliterando os sentidos, principalmente quando o soporífero está contido numa garrafa, sem rolha, mesmo ao lado do nariz, salientando o ambiente em que se adormeceu, ou se entrou em coma, ou se anestesiou, quase até ao vómito que foi precisamente o que o obrigou a um salto repentino da enxerga e a uma corrida para a casa de banho à procura de um chuveiro que lhe permitisse a limpeza e a erradicação dos odores e dos humores. Uma íngreme exercício a que se ia especializando em cada manhã. Repetidamente à mesma hora. Fatídico. Preciso. Tal qual um relógio suíço.
Todas as noites se deitava com a fé que seria no dia seguinte que teria inicio uma nova e sóbria vida. Todas as noites, estas sem as intermitências das manhãs agoniadas, umas piores que as outras, que essa novel figura, seria, enfim, um homem novo, passe a redundância. Debaixo da água abundante e gelada, tomava consciência das suas promessas vãs até que o fígado, fatigado, desligasse definitivamente. Nessa altura, então, …
Aos poucos e com o vigor da água que inundava todo o chão e paredes até ao tecto da casa de banho, ia adivinhando que horas seriam, sempre a mesma, observando a sombra da janela no espelho, que reflectia um rosto desconhecido, de olhos encovados e vagamente amarelos a encimar um nariz arroxeado e uma barba que nem era branca, nem preta, mas também amarela à volta dos lábios gretados e lívidos. Ao álcool em abundância, somava os cigarros acesos uns nos outros que, com algum café e ocasionais fritos, consistindo esta amalgama a que dificilmente poderia dar-se o nome de alimentação, numa dieta rica em lixo. Quando lhe lembravam da merda de vida que levava, retorquía com a mesma verborreia, com que o abordavam, quem quer que fosse, social e hierarquicamente falando, dizendo que mais não era do que a merda que ele próprio frequentava. Nessa altura, encolhiam os ombros e apenas o toleravam, porque no meio de toda a pestilência e mau feitio, sabia como ninguém encontrar qualquer agulha num qualquer palheiro, mesmo que este se encontrasse nos antípodas, ou aquela, na taberna da esquina, espetada num pastel de bacalhau, que depois de encontrada, pedia tinto, que bebia de uma só vez, directamente do jarro, para que não se dessem ao trabalho de ter lavar os seus copos, já que o jarro era sempre o mesmo e tinha o seu nome gravado, numa dentada furiosa no bordo, após uma altercação de circunstância. É claro que o outro partiu o nariz no balcão, pelo que deixou de ser cliente da espelunca.
- Tu espantas-me os fregueses todos!
- E para que precisas tu deles se eu sou o melhor? O único que te permite pagares a renda desta baiuca.
Mas aquela manhã era diferente e, ainda não o sabendo, seria a última, ou a primeira. Iria depender dos astros. Ou de si mesmo.

As mudanças acontecem apenas de duas formas. Imperceptíveis ou inesperadas. As que lhe calhavam em sorte, pertenciam todas à segunda categoria.

LAM; "Quem; Como; Porquê; ...", excerto; Edições Afa-Zer, 2015


quarta-feira, 13 de maio de 2015

[sem titulo]

Photo © Henri Cartier-Bresson - Magnum Photos

Dou corpo à solidão, pois é dela que me alimento todos os dias. Percorro todas as avenidas, ruas, becos e pátios da memória à procura. De algo. Ando sempre à procura. De algo. Por vezes, sento-me num banco, ou num qualquer recanto mais sombrio, porque me doem os pés. Ou então é a alma. A alma e os pés são intrínsecos. Seminalmente juntos na tarefa da procura. Origem e destino. Quando me encontro sentado, pés e alma vogam aflitos. Não se encontram. O seu contacto perde-se por meio do corpo em descanso. Se me deito, os pontos cardeais esbatem-se de tal forma, que tal como uma qualquer gota de tinta clara se confunde na abundante água onde se escoa. Dilui-se. O corpo já não é, então. Também aí, a solidão deixa de ter sentido. Pausadamente, a alma se vai erguendo e, na distância do seu olhar distante, me observa, com todos os seus olhos de Hidra, me toca com todas as suas mãos de Xiva, me envolve nos seus labirintos de Dédalo, me tortura nas amarguras de Tântalo. Me abandona comigo. Só. Nesse momento cerro os olhos para me confundir no destino. Nada transporto comigo para que as alfândegas não me macem com perguntas de circunstância e me questionem sobre o trajecto. Senão, viro as costas e caminho nessa linha que não é de uns nem é de outros. É. Apenas. Caminho. Só. Com a esperança que os meus braços não me atraiçoem pendendo mais para um lado que para o centro de mim, que me equilibro no percurso dessa linha, que não é de ninguém, mas é onde vou. Só. O meu percurso. Na minha senda.

Se um rio sabe que vogo, envia-me um pássaro, que percorre searas, como quem percorre seios femininos que alimentam os que têm fome. Dão de beber a quem tem sede. Só. Com o olhar. Não lhes é permitido que repousem sem que anunciem o rio que os envia. Não podem descansar, por mais longínqua que seja a viagem, o voo, o destino. Quando vislumbro uma asa ou ouço um longo grito, não sei de onde vem. Ainda. Por isso continuo nessa linha imaginada, de ninguém. Só, me detenho no rio que cresce. Primeiro em pequenas manchas de espuma branca na areia diurna. Quando arrefece e a noite se afigura, as vagas agigantam-se como que me envolvendo. Impedindo-me assim de adormecer. Porque tenho frio. Porque o som me atordoa. Porque o grito da ave se sufoca a si mesmo. Porque o escuro me impede. Porque não quero. Adormecer. Só. Porque a areia me dói nos pés e a alma se afoga no pranto marítimo da praia deserta. Imensamente deserta. Só. Me basto. Só. Me quero. Só. Espero então que a manhã se debruce no horizonte. Estenda o seu manto diáfano e dê forma às coisas. Que as torne legíveis. Que lhes dê cor e luz e sombra e penumbra e alimente as árvores onde me sento por debaixo, protegido do olhar dos homens que caminham sós, também eles por caminhos que só eles sabem, ou querem, ou ignoram, ou tanto lhes faz. Talvez não se importem. Talvez apenas queiram ir para onde os pés e a alma os levam. Para lugar nenhum, que é afinal todos os lugares, esse local onde todas as almas solitárias se encontram. Sós. Cegas. Mudas. Quedas.

Hoje, é um dia que terá tido um início. Terá um fim, por certo. Todavia, deitei fora o relógio. O tempo já não tem importância. Teremos sempre o Livro de Job para ler.


LAM; “Há dias assim. Apenas dias.” In “O Pombo Molhado”; Edições Afa-Zer, 2015 


domingo, 8 de março de 2015

Há dias que é isso mesmo. Nada Mais. Dias!

Foto do autor do Texto "Há Dias que é isso mesmo. Nada Mais. Dias!"


Sei que o inverno é de passagem, que o inferno é miragem
Sei que o tempo é destino, como o alimento é intestino
Sei que o vento é a sublimação do ar, frio, quente, frio, quente,
Sei, que afinal não sei que nada do que disse tem importância,

Só o silêncio ouve.

Há coisas que não importam, outras que têm importância e outras ainda que,
De inúteis são isso mesmo. Inúteis. Sem importância. 

Há coisas que quero saber. Têm nome e o nome 
das coisas dá-lhes a importância que merecem, porque 
inúteis. Coisas sem importância. Outras coisas, 
outras.

E há esse desvio sempre,
Do que que se quer dizer, do que é dito e do que ficou por dizer, porque não ouvido,
Sentido, (não)
Sofrido,

(... o silêncio, ...)

No arrumo das prateleiras bafientas, dos livros com pó e saber, há os que reservam a surpresa. Essa surpresa, sempre.

Lê-se (recorda-se) as palavras diapasão de um dia, outro. Por vezes,
Bem, por vezes paramos no meio
Das frases, dos pensamentos memória,
Das emoções da memória de repente vista com os olhos, outros.
Dos sentidos, os mesmos de sempre, re-descobertos agora, que
Pensamos para sempre, esse
Sempre que nos persegue em frente, como
Sombra, mesmo que o sol nos fira, de frente
Os olhos, com que te-vimos (ti-vemos) uma vez. Única e irrepetivelmente única e para sempre, única.

Quero a mágoa dos dedos doridos na ferida aberta
O sangue esperma que gera os filhos-dor, que nos sangram a memória que não
Queremos, … e depois, …
Há sempre o pombo preto, qual corvo de bico branco. Alvo-branco que fere o olho limite
Do sentido. De pé. De joelhos. Deitado. Defunto.
Do fundo.

(todas as palavras são filhos de quem somos 
pais defuntos. Do fundo 
do mais que há 
em nós)

Re-lê-mo. Re-dimo-mo. Pre-siso-te agora que sou de carne que
é viva na memória pro-funda que teima, re-expira e re-inspira-se e re-nasce-se e re-nova-se 
e re-solve-se e di-solve-se, no diluir dos meus(únicos i-repetidos) dias.

Quero … traço ponto traço ponto ponto. Ponto!

Re-tiro o que disse e me repito até que que a exaustão nos dissolva. 
Me re-solva.
Nada mais quero. 
Quero!
Resto-me na re-evolução de tudo que me compõe. 
Que me, de-compõe.



LAM;! In “O Pombo Molhado”; Edições Afa-Zer Março de 2015


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

L




Um dia
vais
saber
do mundo
onde
eu
habito.


LAM in “ O Pombo Molhado”; edições “Afa zer” 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Angélica, ...




Ser impossível é ser nada. É ter a oportunidade de uma noite em branco para se rever. Contar os pontos de luz no tecto filtrados pela persiana do quarto sempre que um carro passa na rua. Ver-se acordado, é um exercício só de alguns. É não ter relógio, nem manhãs, nem segredos nocturnos. É não ter medo que o futuro seja ainda uma porta por abrir. Ser impossível, é ter na mão o desejo de te compor. Fazer de ti uma sinfonia. Mais simples ainda. Um quarteto de cordas em que toco o teu corpo violoncelo, modelo nas minhas mãos de marinheiro, de muitas noites de vigia, muitas noites de sol no verão árctico. Muitas noites brancas e em branco. Muitas noites contigo no pensamento, no coração e nas mãos cerradas dentro dos bolsos, naquele balanço marítimo. Não tenho corpo. Ouço, no navio, os cânticos de sereia dos marinheiros de outrora. Quisera eu amarrar-me ao mastro para que não me arrastasses no teu lamento, no teu encanto. Nada disso se passa no tecto do meu quarto. São as vozes nocturnas que passeiam na rua que trazem o teu lembrar. O teu sono agitado. O teu grito nocturno. O teu suor, as tuas lágrimas que eu beijo dentro do teu sonho. Abraças-me com força e pedes-me para te esconder, para que não te levem para onde não queres estar. Agora estás tranquila, mas aguardo o teu suspiro primeiro, depois um soluço, a seguir o grito. É sempre no grito que te levantas e me olhas como a um estranho, mas mesmo assim me agarras como se eu fosse a última coisa do mundo. Por onde andaste para chegares assim tão condenada? As tuas feridas sangram. Vejo-as reflectidas no lençol. Tem sido assim desde que te resgatei naquele porto do norte onde andavas à deriva. Desde esse dia, sou o teu médico, o teu confessor, o teu amante, o teu abrigo. Desde esse dia que me olhas dessa maneira no sonho. Depois acordas e ficas a soluçar no meu peito. Depois de acordares afago-te o cabelo e te encosto a mim, para que adormeças de novo, para de novo acordares nesse grito lancinante de gaivota ferida.
Há muito que não durmo de noite para te proteger. Sinto que no quarto há outro animal estranho que se enrola em nós e nos deixa estranhamente calmos à espera do perigo. Outro carro passa na rua. Agora o desenho da janela semicerrada percorreu o meu corpo despido e não me reconheci no espelho do quarto. Desde que chegaste que sou outro em mim. Um estranho dentro de outro estranho. Passei de marinheiro a vagabundo de almas. As profissões não são diferentes, só que na nova nunca sei quando vou dormir. Penso em sair, mas o gato olha-me da porta do quarto. É um gato que também não dorme de noite. É um gato consciência que me obriga a ficar de pé, indeciso. O gato não sai da porta, eu não saio da janela, tu não sais da cama, onde agora dormes. Ao menos tu consegues dormir, embora aos soluços, com lágrimas e com sonhos agitados, que sei pela tua mão que não se aquieta. Tento sair do quarto mas o gato não se mexe. Ficamos frente a frente a olharmo-nos nos olhos. O gato sabe que tu vais gritar de novo e quer-me aqui. Afinal nada precisa de mim, há um gato que te vela.

Gosto deste jogo da insónia. Há já tantas noites sem dormir. Nunca me pensei assim, embora fosso meu mister guardar o navio quando o dia se ia até que voltava, e me encontrava no sonho desperto para si. Por isso me encontraste. Agora que vejo nos teus olhos de criança perdida a razão por me teres encontrado, quero que saibas o meu nome. 

LAM; Os passos encontrados; algures.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Beija-me, não me perguntes porquê!

Há coisas que nunca se esquecem.

O primeiro primeiro beijo e, ...

..., o beijo!

LAM; Apari(a)cções; Set 2014



sábado, 13 de setembro de 2014

sábado, 27 de outubro de 2012

A Viagem








Acordou naquela manhã como nunca havia despertado antes. Nada estava no lugar que seria o certo, como certo era o acordar todas as manhãs. Primeiro a mente, depois as mãos, os pés, o corpo. Por fim os olhos abriam-se para aquele fio de luz que deliberadamente deixava escorrer para que o quarto não fosse só um útero. Havia de nascer repetidamente, uma e outra vez e ainda mais uma vez, todas as que fossem necessárias para se completar. Uma em cada nova manhã. Um dia novo. Novos pensamentos, novas palavras, novas ideias, muito embora tudo reciclado dos escombros dos dias anteriores. Uma repetição, mas uma nova leitura, mínima mas forçosamente nova. Outra interpretação dos mesmos signos. O mesmo livro com diferente leitura. Impedia-se chegar ao termo pois não se iria permitir a um fim absoluto. Todavia, aquele desadormecer era um começo diferente. A luz que se insinuava tinha uma outra tonalidade, desigual. Irreal quotidiano.

Sentiu e deixou que o estranho lhe invadisse a pele, se tornasse na sua cápsula, que nada vindo de fora alterasse aquele sentido íntimo da transformação que se operava no que mais de subterrâneo sabia de si. A água tépida caía, singular, por sobre a cabeça, os ombros, diluindo-se aos pés para desaparecer, incólume no ralo por onde desvaia a sua vida anterior. Olhou-se ao espelho, baço de vapor e adivinhou as pregas dos olhos agora despertos. A barba teria de esperar e nem ao desalinho do cabelo deu cuidado. Envolveu-se no roupão que lhe extinguia a humidade acumulada. Na cozinha, pegou numa maçã e recriou o pecado original, mas à sua volta nem Eva nem a serpente testemunhavam o novo ser. Abriu a janela e absorveu tudo o que um mundo lá fora lhe trazia em golfadas, a cada inspiração. A brisa estremunhada da cidade, as vozes alteradas das crianças no pátio da escola numa orgia de liberdade cerceada pelo gradeamento do pátio e o esvoaçar plano das gaivotas, com o rio ali tão perto, para além dos telhados todos iguais, não mais do que tampas de caixas que guardam segredos que só aos seus ocupantes interessam. Voltou ao quarto, levando consigo aquela atmosfera de civilização e vestiu-se lentamente. Primeiro as meias, depois a roupa interior, por fim umas calças de ganga puídas e uma camisa de flanela sem cor. Passou então as mãos pelos cabelos para lhe dar alguma ordem. Tirou um cigarro do maço já aberto e acendeu-o maquinalmente inspirando fundo aquele fumo azul, junto com o céu que vinha da cozinha pela janela escancarada. Antes de sair, pegou na chave de casa que juntou ao isqueiro no bolso da frente. Ainda tinha tempo para um café.

Na rua, a ordem dos dias permanecia inalterada. Sempre os mesmos rostos, os mesmos gestos, os mesmos esgares que numa altura remota denunciavam sorrisos, o bom dia maquinal e a mesma pergunta, repetida vezes sem conta. Se era café? Sim, era. Queria desmontar aquela pergunta estupida mas não esteve para isso. Implicava mais conversa que ele não tinha, nem lhe interessava. Se ele seria café ou outra coisa qualquer, só a ele podia dizer espeito. Aquilo que queria era saborear aquele gosto amargo e quente e mantê-lo no conforto do estomago até que outro cigarro substituísse o anterior. A repetição dos gestos permitiam-lhe chegar sempre àquela primeira frase com que começaria o dia. “Então, vinda do sul, uma sombra em forma de nuvem trazia o calor que o descobria”. Era uma frase sem sentido que a única coisa que dizia era que, algures no hemisfério norte, uma pessoa precisava desse calor para ser. Geograficamente discutível assim como vazia de qualquer sentido. Fustigou o passo. Tinha pressa de se sentar ao computador e escrever aquela frase. A partir dali, seriam oito ou mais horas de letras, palavras, frases, capítulos inteiros a que tentava dar um sentido, somando páginas a outras páginas para no fim se sentir vazio. Mas aquela manhã tinha sido diferente. Não tinha saído de um útero mas de um lugar ainda mais profundo e denso.

“Então, vinda do sul, uma sombra em forma de nuvem, parecia trazer o calor que o embalava”.

“Envolto no mistério daquela massa gasosa, um homem sentou-se no cais à espera e demorou-se até que toda a alma lhe doesse. Quando por fim se apercebeu da triste realidade, levantou-se, sacudiu o pó dos dias pousado há muito na sua roupa repetida e partiu. Desde esse dia ninguém mais o viu. Fora-se para sempre. O que esperava, soube-se mais tarde, mudara de vida e abandonara-o. A ele restou-lhe seguir o seu caminho, agora mais leve, pois só podia contar consigo e mais não queria. Demorara a entendê-lo, mas fizera-o a tempo. Pegou naquilo que ainda possuía, a sua esperança, e foi para sul, até que a nuvem se desfizesse e apenas o calor perdurasse.”

LAM; A (cor) Dar, Outubro 2012