sábado, 27 de outubro de 2012

A Viagem








Acordou naquela manhã como nunca havia despertado antes. Nada estava no lugar que seria o certo, como certo era o acordar todas as manhãs. Primeiro a mente, depois as mãos, os pés, o corpo. Por fim os olhos abriam-se para aquele fio de luz que deliberadamente deixava escorrer para que o quarto não fosse só um útero. Havia de nascer repetidamente, uma e outra vez e ainda mais uma vez, todas as que fossem necessárias para se completar. Uma em cada nova manhã. Um dia novo. Novos pensamentos, novas palavras, novas ideias, muito embora tudo reciclado dos escombros dos dias anteriores. Uma repetição, mas uma nova leitura, mínima mas forçosamente nova. Outra interpretação dos mesmos signos. O mesmo livro com diferente leitura. Impedia-se chegar ao termo pois não se iria permitir a um fim absoluto. Todavia, aquele desadormecer era um começo diferente. A luz que se insinuava tinha uma outra tonalidade, desigual. Irreal quotidiano.

Sentiu e deixou que o estranho lhe invadisse a pele, se tornasse na sua cápsula, que nada vindo de fora alterasse aquele sentido íntimo da transformação que se operava no que mais de subterrâneo sabia de si. A água tépida caía, singular, por sobre a cabeça, os ombros, diluindo-se aos pés para desaparecer, incólume no ralo por onde desvaia a sua vida anterior. Olhou-se ao espelho, baço de vapor e adivinhou as pregas dos olhos agora despertos. A barba teria de esperar e nem ao desalinho do cabelo deu cuidado. Envolveu-se no roupão que lhe extinguia a humidade acumulada. Na cozinha, pegou numa maçã e recriou o pecado original, mas à sua volta nem Eva nem a serpente testemunhavam o novo ser. Abriu a janela e absorveu tudo o que um mundo lá fora lhe trazia em golfadas, a cada inspiração. A brisa estremunhada da cidade, as vozes alteradas das crianças no pátio da escola numa orgia de liberdade cerceada pelo gradeamento do pátio e o esvoaçar plano das gaivotas, com o rio ali tão perto, para além dos telhados todos iguais, não mais do que tampas de caixas que guardam segredos que só aos seus ocupantes interessam. Voltou ao quarto, levando consigo aquela atmosfera de civilização e vestiu-se lentamente. Primeiro as meias, depois a roupa interior, por fim umas calças de ganga puídas e uma camisa de flanela sem cor. Passou então as mãos pelos cabelos para lhe dar alguma ordem. Tirou um cigarro do maço já aberto e acendeu-o maquinalmente inspirando fundo aquele fumo azul, junto com o céu que vinha da cozinha pela janela escancarada. Antes de sair, pegou na chave de casa que juntou ao isqueiro no bolso da frente. Ainda tinha tempo para um café.

Na rua, a ordem dos dias permanecia inalterada. Sempre os mesmos rostos, os mesmos gestos, os mesmos esgares que numa altura remota denunciavam sorrisos, o bom dia maquinal e a mesma pergunta, repetida vezes sem conta. Se era café? Sim, era. Queria desmontar aquela pergunta estupida mas não esteve para isso. Implicava mais conversa que ele não tinha, nem lhe interessava. Se ele seria café ou outra coisa qualquer, só a ele podia dizer espeito. Aquilo que queria era saborear aquele gosto amargo e quente e mantê-lo no conforto do estomago até que outro cigarro substituísse o anterior. A repetição dos gestos permitiam-lhe chegar sempre àquela primeira frase com que começaria o dia. “Então, vinda do sul, uma sombra em forma de nuvem trazia o calor que o descobria”. Era uma frase sem sentido que a única coisa que dizia era que, algures no hemisfério norte, uma pessoa precisava desse calor para ser. Geograficamente discutível assim como vazia de qualquer sentido. Fustigou o passo. Tinha pressa de se sentar ao computador e escrever aquela frase. A partir dali, seriam oito ou mais horas de letras, palavras, frases, capítulos inteiros a que tentava dar um sentido, somando páginas a outras páginas para no fim se sentir vazio. Mas aquela manhã tinha sido diferente. Não tinha saído de um útero mas de um lugar ainda mais profundo e denso.

“Então, vinda do sul, uma sombra em forma de nuvem, parecia trazer o calor que o embalava”.

“Envolto no mistério daquela massa gasosa, um homem sentou-se no cais à espera e demorou-se até que toda a alma lhe doesse. Quando por fim se apercebeu da triste realidade, levantou-se, sacudiu o pó dos dias pousado há muito na sua roupa repetida e partiu. Desde esse dia ninguém mais o viu. Fora-se para sempre. O que esperava, soube-se mais tarde, mudara de vida e abandonara-o. A ele restou-lhe seguir o seu caminho, agora mais leve, pois só podia contar consigo e mais não queria. Demorara a entendê-lo, mas fizera-o a tempo. Pegou naquilo que ainda possuía, a sua esperança, e foi para sul, até que a nuvem se desfizesse e apenas o calor perdurasse.”

LAM; A (cor) Dar, Outubro 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um Dia no Paraíso

­  

Boa tarde, o que vai desejar?
­   Para entrada, traga-me por favor, Teixeira de Pascoaes, “Canção da Névoa”
­   No original?
­   Sim, por favor, o de Sombras, edição de autor
­   E para acompanhar a entrada, tem algo em mente?
­   Oh sim, desculpe-me a distracção, já degustava. Pode ser, "20 de Abril" de Bosques de mi Mente.
­   Em MP3, ou tem preferência em outro formato?
­   Pode ser em MP3, tem um bitrate bastante aceitável, obrigado.
­   É tudo quanto deseja por agora, ou posso ir preparando o prato principal?
­   O que tem, assim, de mais suculento, de substancial? Pode ser demorado, tenho tempo.
­   Sempre pode consultar a carta, mas recomendo o Fausto, está no original.
­   De Goethe?
­   Sim, temos a primeira parte de 1806 e a segunda de 1832.
­   Verifico que o tem completo. Que maravilha. Fico-me hoje pela primeira parte.
­   E gostaria de o acompanhar com algo de especial?
­   Sim, uma coisa contemporânea, mesmo muito recente. The Blue Nature of Everyday” de Leonardo Rosado.
­   FLAC, MP3?
­   MP3, satisfaz-me o background, quanto baste.
­   Temos também umas sobremesas óptimas.
­   Ah sim? Estou curioso, …
­   Para hoje, está recomendado como final deste prato principal, William Blake; “Songs of Innocence and of Experience Showing the Two Contrary States of the Human Soul”, não é o original, mas é um trabalho muito cuidado, com ilustrações do autor, também.
­   Realmente um final divino.
­   Para acompanhar, …
­   Nada, por favor, nada. O silêncio basta-me. Muito obrigado
­   Espero que tudo esteja do seu agrado.
­   Está com certeza. Não podia estar melhor.
­   Com sua licença, volto já com o seu pedido.

LAM; “Um Dia no Paraíso” em 18-05-2012


sábado, 12 de maio de 2012

Nada



Não tenho palavras. Procuro nos bolsos o resto dos dias e não me sobram vocábulos. Já não construo frases. Aqueles blocos coloridos que numa alcântara febrilmente erigida, nos permitem transpor o nosso desejo de permanecer.  Essa ambivalência do nada, do quase nada, que subjaz ao pensamento. O corpo inerme, vai. Mas a vontade é mantida prisioneira do chão que a enraíza. Não, essa metáfrase que subjuga. Não. Não e não. Nada. A vida já não pertence ao corpo nem à sintaxe. O texto está morto e frio. Há que deitá-lo à terra que o viu quase nascer, aquando um quase nada. Um quase coisa nenhuma, mas ainda coisa e nenhuma. A coisa em si. Copos. Corpos com liquido dentro, que o tempo se vai encarregando de ir sorvendo em pequenos golos, a intervalos cada vez mais diminutos. Tempo. Uma unidade para-matemática para designar o espaço entre. Outros corpos. Outros tempos. Viajando se encontram as razões da existência, olhando bem no fundo dos olhos dos outros. É sempre um outro que vai e é sempre estoutro que fica, mesmo indo com o outro. Um que não é igual. O outro que permanece. A dicotomia da azáfama de nada fazer. De deixar estar. De ser e de não ser. Para-fazer. Palavra encontrada ao acaso no caminho que não se percorre, mas se alonga no olhar. Uma pedra aqui. Uma árvore ali. Por fim um viandante. Ninguém. Um percurso deserto. Para onde vão os sentidos fica a esperança, vã, como vãs são todas as coisas no decurso do tempo. A pouco e pouco me vou despindo, até que só me resto eu. E nem o eu se resolve. Porque a nada me sou e a nada me entrego. Fechados os olhos, o mundo já não existe.

LAM; Escritos (in)adiados, 11-05-2012

terça-feira, 24 de abril de 2012

Quantos mundos? Quantos Homens?


 
Nesta Terra vivem Homens. Vivem pássaros, peixes e baleias.
Também vivem árvores e vive um oceano imenso.
 Vivem as pedras e os caminhos que as ladeiam.
Vivem alcateias de lobos e rebanhos. Cavalos selvagens, gafanhotos, pulgas e moscas.
Esta Terra vive de si. Autoalimenta-se e reconstrói-se a cada instante. Em segundos, em anos, em séculos.
Esta Terra há-de viver depois dos homens.
Mesmo quando esta Terra tiver morrido, ainda viverá no coração dos Homens.
Nessa altura, não haverá nem homens nem terra. Nessa altura, nem as estrelas serão. Nessa altura, tudo o que existir, é não existência.
Então, um pensamento, que fora de si, dirá:

- Faça-se Luz!

Earth by Jack Hertz

sábado, 21 de abril de 2012

O Labirinto I



A porta havia-se fechado delicadamente. A sua memória recuou para um tempo simultâneo em que aquela porta se fechou consigo lá dentro, numa sobreposição de instantâneos suspensos no tempo, abertos em todos os sentidos, num filme sem-fim. De todas as portas que ouviu, nenhuma apresentava aquela subtileza. Foi um encostar ameno em que o trinco timidamente se libertou, ficando no ar um silêncio de casa vazia, de onde todos os habitantes já tinham saído desta vida mas ainda permaneciam sentados, ou deitados, nos respectivos cantos. Foi cerimoniosamente que aconteceu. Um evento. Mais do que um acaso, uma intensão de deixar ainda mais vazio aquele espaço já de si ausente de qualquer existência. Às imagens de uma porta que se fecha infinitamente na sua memória, junta-se o pingo cadente de uma gota de água, monotonamente persistente, metálica e líquida, prolongando-se no eco de si própria, como uma melodia minimalista, repetitiva e auto-regeneradora, em todos os cambiantes audíveis. O som batia nas paredes, nas janelas, nos móveis e em si próprio, que os duplicava inconscientemente na cabeça, onde camadas de sons de pingos cadentes e de portas a fecharem, se intercalavam com as imagens desses pingos e dessas portas. Sempre o mesmo pingo e nunca o mesmo. Sempre a mesma porta e nunca a mesma, porque o tempo, começava então a pensar para além do presente, não se retia em nenhuma direcção. Era o mesmo tempo em todo o lado, tal como era o mesmo pingo e a mesma porta, sem nunca serem os mesmos elementos, pingo e porta. Queria ser lúcido, mas tudo o que via e ouvia era aquela porta no passado e aquele pingo no presente. O seu pensamento vogava num limbo de sons voláteis como o fogo. Queimava. Deixava de fora a realidade a que se queria ancorar e que ao mesmo tempo, sempre que a aflorava, o amordaçava. O tolhia. Estava prisioneiro daquele instante, como se toda uma vida se resumisse a um clique, simples, de baixa frequência, como a sirene de um navio que se deixa de ouvir com os ouvidos e é o corpo todo o receptor sonoro. Batia-lhe no peito, ferindo-lhe os pulmões, o coração, o estômago, os intestinos, numa dor que se avolumava numa nuvem ao seu redor, e o pingo que não parava, e ele sem forças para se levantar, para gritar. A angústia ia tomando corpo numa náusea absurda. Apetecia-lhe vomitar, mas eram os olhos fechados que teimavam em soltar grossas e longas lágrimas que o queimavam nas mãos. O mundo abria-se então num abismo infindo que excedia a razão.

LAM

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A memória das palavras



Das palavras saem gumes afiados que deixam riscos de sangue em quem passa.
Nos passeios labirínticos da vida, sementes multiformes, vocábulos soltos, simples argumentos de inutilidade.
Ramos altos de acácias desejam o princípio do céu sem deixarem, nunca, a terra onde se fixaram. Das raízes, disse-se. Do chão que as prende, sabe-se.
Temos dois braços, cinco dedos em duas mãos. São verbo, substantivo e sujeito. Dos pés, os passos que voltam sempre ao mesmo lugar. Distante. Daqui. De sempre e de nunca. Agora.
Labiríntico desejo de partilha, segurando com a força do hábito o saber da perda, a cada instante, infinitamente distante. Infinitamente longe de qualquer gesto. Infinitamente gasto.
Parto de mim. Um parto que é nascer e ir. Chegar e voltar no mesmo tempo. Uma viagem que não tem começo nem acaba. Nunca. Palavra definida pela sua incompletude. Trajecto já acabado quando ainda sequer começou.
Porque não voam as árvores? Porque se beiram nos caminhos, estáticas, desejando o céu, só porque, de altas, não vêem o chão em que pisam, com a sua sombra dilatada pelo sol?

- Tem uma árvore, sombra de noite?

Migram os pássaros, as nuvens, os homens e as suas fronteiras. Migram as marés, os barcos e os peixes que neles viajam, dentro e fora. Dentro, porque é a sua natureza de ser peixe. Fora porque é da natureza do homem viver do seu infortúnio. Mas na superfície da vida, de todas as vidas, nada acontece.
Quando um beijo nasce, é já um gémeo de outro. Quando um beijo morre é sinal de não haver nunca nascido. Agora não é um tempo. Agora é um lugar. Intemporal e seguro, como seguras são todas as palavras caladas. Estas não sangram por fora. Estas são lugares escondidos pela língua, pelos dentes, pela boca fechada. Mas elas crescem, surdas e infindas, até que o grito as solte. Depois já é tarde de mais.
Fecham-se os caminhos. Caem as árvores. Fogem os pássaros e os peixes, e até as marés se aquietam, olhando de soslaio a lua que as governa.
A lua, oh a lua. Esse sol noctívago que desassombra os amantes fugidos às leis que os prendem. De nenhum lugar. Para lugar nenhum.

- Sabias que as árvores dançam, nocturnas, nos caminhos que cercam? 

LAM

sem titulo


As palavras doces do vento, o vento certo das madrugadas, o frio das noites sem sono e tu ali, a meu lado. O gesto que seria necessário para abrir uma porta e fecha-la e dizer-te o segredo dos pássaros, num aceno de luar, enquanto dormes. Estou a teu lado. Um lado que só existe nos amantes. O lado de dentro. A suave música da noite, polvilhada de estrelas, embala-te. O teu sono é sereno, de criança, adormecida nos meus braços. Tudo o resto é silêncio. O tempo prolonga-se no meu olhar para além da janela. As sombras incomuns, que todas as noites nos visitam quedam-se junto ao parapeito. Desta vista não há árvores, mas os seus rumores sobressaem na noite quente. O calor do teu corpo veste o meu corpo, ainda frio pelo rumor da alva. O meu passeio nocturno, solitário, está a um abraço do fim. Estás aqui a meu lado. É em ti que me refugio, é em ti que me deito, é em ti que me amanheço.

LAM

sábado, 3 de março de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

“À sombra das acácias, escondes teu corpo sofrido.”




A velha me falou assim. “És um homem-menino. Te guardas sem saber, no escondido das lembranças. Perdeste-te no tempo que já foi”.
Eu baixei os olhos com a vergonha das verdades. Eu já não me sabia havia muito. Ela continuou.
“Deixa que eu remomorie teu passado. Vem no meu corpo, onde os filhos dos meus filhos cresceram para lá de se fazerem eles homens também, tanto, que já me esqueceram. A minha idade, viu morrer e nascer muito capim. O que me resta, neste despojo de ossos, é uma mocidade engelhada, vestida nos panos que já eram dos outros antigos, que vou gastando aos poucos, até que se me finem os dedos, e mais não possa entrelaçá-los para me resguardar da chuva.”
Eu me deixei quieto enquanto minhas lembranças iam e vinham, como socalcos no rebordo da praia. Me sentia peixe fora de água, nessa asfixia do ar, que era demasiado para que meus olhos enxergassem um prenúncio de fim.
“Vem p’ra meu seio, que eu te dou o que precisar”.
A velha me sentou naquele colo esqueletado, moribundo de vida, e me encostou a minha cabeça no seu peito, para que sentisse o fim do que ela já foi. Fechei meus olhos naquele negrume, e me vi rodeado de meninada, que ria e chorava e gritava, tudo no mesmo tempo, até que esqueci quem eu mais era, e fui morrendo no que fui. A velha não falou mais, como se fosse ela que estivesse chupando aquela secura que já foi leite, de encher barriga, tirando a fome de criança pequena.
Quando abri os olhos, pela manhã, descansava minha cabeça num saco gasto e frio. A velha se finou, dando-me de novo existência. Aquela vida que nunca tivera, nem sonhava ter tido alguma vez.
Agora vou amontoando terra por sobre o meu futuro. Lá fundo, no buraco, o que restou de toda uma estória, passada por gerações guardadas no remanso do tempo, se guardava para se juntar aos outros, mais velhos ainda, para que voltasse a ser moça.
No descanso da ferramenta de coveiro, olhei fundo nos meus olhos e já podia ser eu, por fim.
Nunca soube seu nome, nem como chegámos um ao outro. O importante era que, um novo passado podia ser recontado aos meus netos, esse rebentos dos filhos que eu sabia, ia fazer.
Na sombra daquela Boabá, fiz da terra em volta, minha mulher, e pude adormentar em paz.
Agora, tudo estava no lugar que era seu por propriedade.

Orlando Munhiça, na cidade das Acácias. “Um dia em África”; Conto a publicar